O saber liberta

Oxalá e Jaci aguardavam, pacientemente, Emanuel no Jardim do Éden. Eles haviam combinado no dia anterior que o encontro de final de tarde seria organizado pelo amigo atrasado. Maria, mãe do anfitrião,  não sabia o motivo da demora, mas avisou que suspeitava de que o filho estava reunido com alguns doutores e professores do Templo frequentado pela família.

Não era incomum Emanuel esquecer do tempo em momentos como estes. Ele não perdia a oportunidade de ensinar e aprender os mais diversos saberes do mundo. Ficou famoso o episódio em que ele, ainda com doze anos de idade, desapareceu do olhar familiar e somente foi encontrado três dias depois, “sentado no meio dos doutores, a ouvi-los a fazer-lhes perguntas”.

A notícia de que Emanuel estava exercitando a sua inesgotável onisciência, preocupou Jaci. É que ela estava apreensiva com a possibilidade de não encontrar o seu amigo naquele dia, pois teria que honrar, logo mais, o seu rotineiro compromisso de iluminar a noite da humanidade.

–  E então, Oxalá! Será que o nosso sábio esqueceu da gente? – perguntou, Jaci, preocupada com o avançar do tempo. – Eu não posso me atrasar hoje, pois me preparei para encerrar a fase lunar com muita luz e brilho.

–  E desde quando você não faz da noite um momento especial e de muito aconchego? – sorriu Oxalá. – A noite sem Jaci é como a própria Terra sem a pessoa humana, vazia, sem vida.

–  Você é suspeito para me julgar. O seu elogio não vale no Tribunal dos Deuses – gargalhou Jaci. – E o nosso Emanuel, ele vai exercer a onipresença e nos dizer que sempre esteve aqui conosco?

– Nós sabemos que o saber é apaixonante, cativante e nos fazer perder a noção do tempo – comentou Oxalá. – Você mesma perdeu o nosso encontro quando recebeu a visita de Saraswati. Lembra?

– E como esquecer da sabedoria e da musicalidade dela? A nossa amiga do hinduísmo é uma deusa na arte de ensinar as coisas do mundo – concordou Jaci. – E quando ela começou a tocar o sitar, acompanhada da flauta de Akuanduba, o tempo definitivamente parou. Até mesmo Sumé ficou em silêncio.

– Esse é o nosso grande professor Sumé, exercitando o silêncio para melhor escutar o saber de outras espiritualidades! – exclamou Oxalá. – Orunmilá, com a sua imensa sabedoria, um dia me disse que quando o ar cristalino do conhecimento é arrefecido, o corpo perde o equilíbrio, a mente se agita em desordem e o coração desacelera desesperançado.

– Orula sabe o que diz e escreve! Olurum fez bem em transformá-lo em seu melhor intérprete – escutou-se a voz de Emanuel, chegando, finalmente, em casa. – Meu Pai também escreveu que “A boca do justo profere sabedoria, e a sua língua fala conforme a justiça”.

– Ainda bem que você chegou, seu sabichão! Mais um pouco eu ia iluminar a minha beleza em outras paragens – disse, fingindo-se zangada, Jaci. – E o que mais devemos saber sobre o saber que atrasou você?

– Nada que você já não saiba, minha querida Lua – brincou Emanuel. – Debatíamos que o saber realmente faz livre e justa a criatura que criamos, tornando-a capaz, inclusive, de assumir a direção de seu próprio destino.

–  E de substituir o próprio governante! – aparteou Oxalá. – E é exatamente em razão do poder divino do saber que esses desalmados não investem adequadamente em um sistema educacional libertador, universal, de qualidade e acessível a todos e todas.

– As maiores vítimas desta criminosa política do “deseducar consciente” são as pessoas pobres, as camponesas e as que vivem nas minhas aldeias – complementou, triste, Jaci. – Os deseducadores sequer disfarçam que não dão importância ao saber alheio. Basta observar que as escolas ruem, faltam profissionais de ensino ou são eles pessimamente remunerados.

– E tudo sem contar que os alunos e as alunas rurais enfrentam quilômetros de sofrimento para que possam chegar a estas escolas moribundas – acresceu Oxalá. – E também as crianças que moram nas comunidades das grandes cidades e que são constantemente vítimas das mortais balas dos traficantes, dos policiais e dos milicianos.

– É a tirania educacional dos coronéis, dos miliciados e dos oligarcas – lembrou Emanuel. – Mas, como registrou Lucas, devemos ensinar “palavras e sabedoria a que nenhum dos seus adversários será capaz de resistir ou contradizer”. Aos que deseducam devemos dar como resposta a face da educação libertária.

– Um brasileiro chamado Paulo Freire reproduziu essa ideia em ação, Emanuel – concordou Jaci, para logo repetir um de seus ensinamentos. – “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de maneira crítica”.

– Não há outro caminho! – ponderou Oxalá. – Há muito Ogum nos diz que devemos nos unir em guerra pela educação universal, pública e gratuita. Não podemos concordar com a tragédia que se abateu sobre gerações e gerações. Não podemos mantê-las excluídas do saber, condenando-as à não ascensão social ou, o que é igualmente grave, a acreditarem de que nada se pode fazer contra o “azar da pobreza” imposta desde o nascimento.

– Proposta aceita, Oxalá! Vamos nos unir para que possamos iluminar os que marcham em defesa do saber que igualiza as pessoas, tornando-as resistentes à exploração, quebrando o preconceito que provoca o isolamento de uma classe que não nasceu em “berço esplêndido” – disse, empolgada, Jaci. – Estou com você, Emanuel, vamos proteger as pessoas que compreendem que educar é palavra que rejeita tiranias, mitos, imbecilidades, misoginias, racismos, homofobia e toda forma de opressão.

–   O seu brilho mostra que valeu a pena me esperar – brincou Emanuel, para  depois citar um de seus provérbios prediletos. – “Porque o Senhor dá a sabedoria, e da sua boca vem a inteligência e o entendimento”.

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