Vozes da intolerância

Emanuel, Jaci e Oxalá nasceram com o dom especial de conhecer todas as línguas do mundo, inclusive as vozes dos animais. Todos os membros de suas famílias tinham esta mesma facilidade. Assim eles sabiam de tudo que acontecia em sua volta. Os animais gostavam de pedir para brincar com eles pelas matas. E eles retribuíam protegendo-os dos caçadores e dos incêndios. Mas era Jaci quem mais ouvia os problemas dos bichinhos, especialmente à noite, quando todos já estavam dormindo. Escutava ainda as vozes que brotavam dos sonhos e das rezas dos humanos quando se lembravam de suas próprias existências. Contava o que ouvia aos seus amiguinhos antes do nascer do sol. Assim eles saberiam o que as pessoas desejavam antes mesmo do cantar matinal do galo ou do grito desafinado do despertador.

– Esta noite um pedido se repetiu em devaneios e rezas. Até mesmo os animais pareciam querer a mesma coisa – confidenciou Jaci, preocupada.

– Foi mesmo? O mesmo pedido? – perguntaram, um coro uníssimo, os amiguinhos.

– O mesminho, meninos! – respondeu, explicadamente, Jaci. – E não era uma súplica muito legal. Eu mesma fiquei assustada.

– Assustada? Como assim? – ainda as vozes eram duplicadas.

– Vocês sabem que sempre nos pediram ajuda, cura ou alguma graça para eles próprios, seus conhecidos ou até para as comunidades que vivem – seguiu Jaci.

– Paz, amor, saúde e prosperidade! – brincaram Emanuel e Oxalá, repetindo o bordão oracional que declamavam por infinitos anos.

– Nam, nam, não, naninha! – replicou Jaci. – Desta vez o que mais queriam era receber como graça divina o poder para derrotar o inimigo de plantão?

– Inimigo de plantão!!?? – estranharam, simultaneamente, ambos os interlocutores.

– Exatamente, cada uma das súplicas tinha como destinatário um inimigo de rosto diferente e razão absolutamente igual – esclareceu Jaci. – Uma hora era o pai o adversário a ser vencido, outra hora a mãe, o colega de trabalho, a amiga mais íntima, o vizinho do lado, a desconhecida do caminho.

– Como assim? – perguntou Oxalá. – O inimigo não é a covid-19?

– Não é a cura pela vacina que querem? – indagou, Emanuel.  – O inimigo a ser derrotado é a própria pessoa humana?

– E não eram só pessoas que queriam ver destruídas – continuou, consternada, Jaci. – Pediam também para eliminar comunidades.

– Comunidades!!?? – interrogaram, uníssimos, os dois amigos.

– Infelizmente, amigos! – suspirou Jaci. – Os povos indígenas, as comunidades quilombolas, a classe trabalhadora, as entidades que combatem o feminicídio, a lgbtfobia, o racismo…

– Intolerância! – exclamaram os dois.

– Exato! Conhecemos bem isso – concluiu Jaci. – Sabemos o que significa quando a intolerância se torna uma voz coletiva.  Holocausto, genocídio, chacina, suicídios coletivos, ditadura e desprezo pela própria humanidade.

– E também inquisições, cruzadas, guerras santas, crucificações, fogueiras e torturas – complementou Emanuel.

– E ainda escravidão, supremacia racial, Ku Klux Klan – adicionou Oxalá. – Os símbolos do terror até mesmo em vozes oficiais.

– Onde erramos? Por que rezam nos pedindo mais guerras, ódios, violências e desamor ao próximo? – indagou-se Emanuel.

– Omulú me disse que está muito difícil curar a humanidade da doença da intolerância – constatou Oxalá. – Será que, no fundo, querem nos exterminar também?

– Acredito que sim – concluiu Jaci. – Sumé também estava muito preocupado com tanta injustiça praticada. Pensa até em desistir de todos nós e partir mar afora.

– “Tolerância é caminho de paz”, como assim apontou Chico Xavier, psicografando meu querido xará – refletiu Emanuel. – Aos intolerantes vamos seguir mostrando a paz. Esse é caminho.

– “Sáà wúr àse Bàbá!” – saudou Oxalá.

Cezar Britto 

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